sábado, 11 de outubro de 2025

Ônix sobre o peito

 


Princesa da noite


Eu quero ser a primeira dama

princesa da noite guardando seus segredos 

pedra de onix opaca, misteriosa

eternos lábios selados 

levados até meu enterro 


quem vai guardar meus segredos 

quando eu morrer? Nyx talvez? 

meu triste príncipe matinal

sou sua maldita virgem vestal

mantenho seu fogo aceso e seguro

até o anoitecer 


quando suas carícias são brutas

me transpassa, deixando nebulosas 

em meus braços

me segurando de mão cheia 

me faz sentir gigante 


Quanto a mim

permaneço intacta

pisando em seu peito

abrindo a garganta 

rasgando meu seio

eu simplesmente 

sou ao seu lado.



Pandora


Onix sobre o peito, 

cianita preta no pulso 

pedra da estrela não consigo

é falsa então não uso


parece loucura ser tão verdadeira?

mesmo quando posto me fazem de louca

morrerei assim, nem certa nem errada

stay punk, stay true, 

só, levarei minhas levadas verdades

e mais nada


Mentir seria mais fácil 

do que guardar coisas sem valor?

nesse meu armazém abandonado 

guardo meu peito despudorado

ao lado, lágrimas de rancor


Eu sou alguém? 

ou com todas as forças tento ser?

se não teria que pegar o último trem 

e em alguma névoa escura

 desaparecer


Sou alguém 

que nunca tem algo a dizer

a não ser uma caixa de pandora 

com recortes de palavras

que um dia abrirei 

ou terei que encontrar 

minha velha amiga navalha 


as palavras que nunca soltei

moram em mim e me abominam 

por não as libertar

de noite elas pousam em minha cabeça 

como pássaros 

que nunca aprenderam a voar


como liberta-las

sem fazer com que caiam 

como uma bomba?

só posso guarda-las em um relicário 

esperando se afogarem em minhas sombras

Alicerce

mamá por louise bourgeois

Naquele domingo, quando nasci

certamente sem chorar lhe reconheci

como o centro principal das idas e vindas

e jamais me permiti enxergar suas partidas


Me jogou no mar desde então 

eu sou filha de uma mãe chamada solidão 

e despedidas só encontrei aos domingos 

herança de um cordão umbilical já ferido


Tenho pra mim que a saudade nunca superou

os abraços que nunca me dera

no tempo que já se passou


Mas antes de me dar por completa

queria lhe olhar

dizendo que apesar de discreta

eu senti tudo 


Como impedir a mãe de ser mulher?

digo que será mais fácil 

impedir o filho de sentir 

o imensurável mar que deixou ao parir

a deriva 

sem beijos de despedida

sem minhas chagas limpas

sem suportar a reclamação 

sem abraços de vitória ou perdão 

sem amor incondicional 

que ninguém no mundo poderia me dar

então minha mãe se fez o próprio mar


Quanto tempo eu teria de ter

até ao certo perceber

que em minha construção 

talvez o primeiro alicerce

seja nunca deixar que me vejam 

também nunca deixar  que me toquem

assim nunca terão o direito 

de repetir aquele momento 

que trouxe a minha vida

um vislumbre umbilical 

de nosso terror terreno 

puramente existencial 

 

se ninguém nunca me enxergar

nunca terei amar

nunca terei 

algo que só uma mãe 

poderia me dar

mas agora só posso lhe perdoar 

não quero tão pouco lhe culpar

talvez fossemos amigas

se não tivéssemos essa carga massiva

de mãe e filha.


Tentativas de entender 

só farão do viver um castigo 

e já não quero levar comigo

esse sentimento tão incisivo 

adeus.