sábado, 11 de outubro de 2025

Alicerce

mamá por louise bourgeois

Naquele domingo, quando nasci

certamente sem chorar lhe reconheci

como o centro principal das idas e vindas

e jamais me permiti enxergar suas partidas


Me jogou no mar desde então 

eu sou filha de uma mãe chamada solidão 

e despedidas só encontrei aos domingos 

herança de um cordão umbilical já ferido


Tenho pra mim que a saudade nunca superou

os abraços que nunca me dera

no tempo que já se passou


Mas antes de me dar por completa

queria lhe olhar

dizendo que apesar de discreta

eu senti tudo 


Como impedir a mãe de ser mulher?

digo que será mais fácil 

impedir o filho de sentir 

o imensurável mar que deixou ao parir

a deriva 

sem beijos de despedida

sem minhas chagas limpas

sem suportar a reclamação 

sem abraços de vitória ou perdão 

sem amor incondicional 

que ninguém no mundo poderia me dar

então minha mãe se fez o próprio mar


Quanto tempo eu teria de ter

até ao certo perceber

que em minha construção 

talvez o primeiro alicerce

seja nunca deixar que me vejam 

também nunca deixar  que me toquem

assim nunca terão o direito 

de repetir aquele momento 

que trouxe a minha vida

um vislumbre umbilical 

de nosso terror terreno 

puramente existencial 

 

se ninguém nunca me enxergar

nunca terei amar

nunca terei 

algo que só uma mãe 

poderia me dar

mas agora só posso lhe perdoar 

não quero tão pouco lhe culpar

talvez fossemos amigas

se não tivéssemos essa carga massiva

de mãe e filha.


Tentativas de entender 

só farão do viver um castigo 

e já não quero levar comigo

esse sentimento tão incisivo 

adeus.


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