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| mamá por louise bourgeois |
Naquele domingo, quando nasci
certamente sem chorar lhe reconheci
como o centro principal das idas e vindas
e jamais me permiti enxergar suas partidas
Me jogou no mar desde então
eu sou filha de uma mãe chamada solidão
e despedidas só encontrei aos domingos
herança de um cordão umbilical já ferido
Tenho pra mim que a saudade nunca superou
os abraços que nunca me dera
no tempo que já se passou
Mas antes de me dar por completa
queria lhe olhar
dizendo que apesar de discreta
eu senti tudo
Como impedir a mãe de ser mulher?
digo que será mais fácil
impedir o filho de sentir
o imensurável mar que deixou ao parir
a deriva
sem beijos de despedida
sem minhas chagas limpas
sem suportar a reclamação
sem abraços de vitória ou perdão
sem amor incondicional
que ninguém no mundo poderia me dar
então minha mãe se fez o próprio mar
Quanto tempo eu teria de ter
até ao certo perceber
que em minha construção
talvez o primeiro alicerce
seja nunca deixar que me vejam
também nunca deixar que me toquem
assim nunca terão o direito
de repetir aquele momento
que trouxe a minha vida
um vislumbre umbilical
de nosso terror terreno
puramente existencial
se ninguém nunca me enxergar
nunca terei amar
nunca terei
algo que só uma mãe
poderia me dar
mas agora só posso lhe perdoar
não quero tão pouco lhe culpar
talvez fossemos amigas
se não tivéssemos essa carga massiva
de mãe e filha.
Tentativas de entender
só farão do viver um castigo
e já não quero levar comigo
esse sentimento tão incisivo
adeus.

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